terça-feira, 21 de junho de 2011

TEMPO PERDIDO

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Paulo Mohylovski

Descobri que Pierre, meu amigo de adolescência, estava internado na enfermaria de um hospital público. Eu tinha que me armar de coragem para poder vê-lo.

Depois de dois dias
que soube da notícia, estava diante do hospital, um pouco triste e ansioso com tudo aquilo. Antes de entrar, me lembrei das nossas tardes intermináveis, vagabundeando por todos os lugares que desse na telha.

Gostávamos especialmente de um terreno baldio que ficava
diante da sua casa – e que mais tarde se tornou um Shopping Center. A gente levava uma garrafa de vinho e um violão e ficávamos tocando a tarde inteira todas aquelas músicas dos anos 80, principalmente “Tempo Perdido”. Não tinha um dia sequer que não cantávamos a música de Renato Russo.

“Somos tão jovens”, era o verso que gente cantava com mais
intensidade, bêbados e juvenis. Até que Rosane, uma garota de olhos castanhos, apareceu nas nossas vidas. Ou melhor, na vida de Pierre.

Eu apenas continuava acompanhando o casal apaixonado quando eles não
davam um perdido em todo mundo. Rosane também cantava nas nossas tardes bêbadas, mas muito melhor do que nós dois juntos. Em todo caso, éramos um belo trio.

Me lembro que Pierre sempre me levava junto pra casa de Rosane. Tínhamos que subir uma ladeira imensa antes de chegarmos na casa.

Pierre sempre tossia muito quando chegávamos
no final da ladeira. “Você precisa parar de fumar”, eu dizia. Ele ria, dizia que não era nada, que iria parar e cantarolava uma canção. “Somos tão jovens”.

Eu me lembrei de tudo aquilo na porta do hospital.  Suspirei. Tomei coragem e entrei. Na sala da recepção, vi uma mulher de óculos escuros saindo de um elevador.

Não reconheci a
estranha de vestido vermelho. Ela veio se aproximando de mim e me abraçou. Reconheci Rosane. Ela estava chorando. “Que horrível que ele está!”, ela disse, entre lágrimas. Tive vontade de perguntar: “Ele sabe de tudo? Você contou que nós dois...?” Mas a única coisa que perguntei era como ela estava.

Rosane me respondeu com um sorriso amargo que
estava bem. Fazia anos que não nós víamos. Os três. “Somos tão jovens”.

Rosane se despediu de mim e
me deu o seu cartão de advogada. Olhou para fora e me perguntou se eu achava que iria chover.

“A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos”, tive vontade de
responder, mas me calei. Depois que ela se virou e foi embora, esperei pelo elevador. Ia ser muito difícil. Tudo era difícil nesta vida.

Quando o elevador chegou, respirei fundo e entrei. Éramos tão jovens e ainda não podíamos morrer. Pierre estava numa cama, respirando profundamente e com dificuldade.

Estava de olhos fechados. Quando abriu os olhos e me viu, deu um sorriso triste. “Rosane acabou de sair daqui”, ele disse. Segurei a mão do meu amigo, perguntei como ele estava indo e depois continuamos conversando como se o tempo não tivesse passado, nem perdido.

E no final da visita, entre tosses e lágrimas, comecei a cantarolar baixinho a música de Renato Russo, enquanto Pierre fechava os olhos para adormecer em paz...

( Blog Conto Perdido - 
http://contoperdido.zip.net/)
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Confira outros textos do grande Mohylovski em
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=72420

Um comentário:

  1. kkkkk...é verdade...e não é a melhor fase da vida?
    Q bom vir me fazer uma visitinha...
    Como vc está?
    Bom feriado!!

    Bjinhu no coração, maninho!!

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