domingo, 27 de outubro de 2013

DIAMANTES

Paulo Coelho

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Diamante. Brilhante, se assim desejam chamar.

Como todos sabiam, um simples pedaço de carvão, trabalhado pelo calor e pelo tempo. Como não contém nada orgânico, é impossível saber quanto tempo leva para mudar sua estrutura, mas geólogos estimam algo entre 300 milhões e 1 bilhão de anos. Geralmente formado a 150 km de profundidade, e que aos poucos vai subindo para a superfície,o que permite a mineração.

Diamante, o material mais resistente e mais duro criado pela natureza, que só pode ser cortado e lapidado por outro. As partículas, os restos desta lapidação serão utilizadas na indústria, em máquinas de polir, cortar, e nada além disso. Diamante serve apenas como uma jóia, e nisso reside sua importância: é absolutamente inútil para qualquer outra coisa. A suprema manifestação da vaidade humana.

Há poucas décadas, com um mundo que parecia se voltar para coisas práticas e para a igualdade social, estavam desaparecendo do mercado. Até que a maior companhia de mineração do mundo, com sede na África do Sul, resolveu contratar uma das melhores agências  de publicidade do planeta.

Superclasse encontra-se com a Superclasse, pesquisas são feitas, e resultam em apenas uma única frase de três palavras: "Diamantes são eternos." Pronto, o problema estava resolvido, as joalherias começaram a investir na idéia, e a indústria voltou a florescer.

Se diamantes são eternos, nada melhor para expressar o amor, que teoricamente deve também ser eterno. Nada mais determinante para distinguir a Superclasse dos outros bilhões de habitantes que se encontravam na parte de baixo da pirâmide. A demanda pelas pedras aumentou, os preços começaram a subir. Em poucos anos o tal grupo sul-africano, que até então ditava as regras do mercado internacional, viu-se cercado de cadáveres.

154030038 (...)  tal indústria inútil movimenta em torno de 50 bilhões de dólares por ano, emprega um gigantesco exército de mineradores, transportadores, companhias privadas de segurança, ateliês de lapidação, seguros, vendedores no atacado e nas boutiques de luxo. (..)  ela começa no lodo e atravessa rios de sangue, antes de chegar a uma vitrine.

Lodo onde está o trabalhador que passa a sua vida buscando pela pedra que irá enfim lhe trazer a fortuna desejada. Encontra várias, vende por uma média de 20 dólares algo que terminará custando 10 mil dólares ao consumidor. Mas afinal de contas está contente, porque no lugar onde vive as pessoas ganham menos de 50 dólares por ano, e cinco pedras são o suficiente para fazer com que leve uma vida curta e feliz, já que as condições de trabalho são as piores possíveis.

As pedras saem das suas mãos através de compradores não identificados, e são imediatamente repassadas a exércitos irregulares na Libéria, no Congo, ou
em Angola. Nestes lugares, um homem é designado para ir até uma pista de pouso ilegal, cercado de guardas armados até os dentes.

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Um avião pousa, desce um senhor de terno, acompanhado de outro geralmente em mangas de camisa, com uma pequena maleta. Se cumprimentam de maneira fria. O homem com guarda-costas entrega pequenos embrulhos; talvez por superstição, os pacotes são feitos usando-se meias usadas. O homem em mangas de camisa tira uma lente especial do seu bolso, a coloca em seu olho esquerdo, e começa a verificar peça por peça.

Ao final de uma hora e meia ele já tem uma idéia do material; então retira uma pequena balança eletrônica de precisão de sua mala, e esvazia as meias no prato. Alguns cálculos são feitos em um pedaço de papel. O material é colocado na maleta junto com a balança, o homem de terno faz um sinal para os guardas armados, e cinco ou seis deles entram no avião.

167123357 Começam a descarregar grandes caixas, que são deixadas ali mesmo, ao lado da pista, enquanto o avião levanta vôo. Toda a operação não demorou mais do que metade de um dia. As grandes caixas são abertas. Rifles de precisão, minas antipessoais, balas que explodem no primeiro impacto, lançando dezenas de mortíferas e pequenas bolas de metal. O armamento é entregue aos mercenários e soldados, e em breve o país se encontra de novo diante de um golpe de Estado cuja crueldade não tem limites. Tribos inteiras são assassinadas, crianças perdem seus pés e seus braços por causa da munição fragmentada, mulheres são violadas.

Enquanto isso, muito longe dali -- geralmente em Antuérpia ou em Amsterdã, homens sérios e compenetrados estão trabalhando com carinho, dedicação e amor, cortando com todo cuidado as pedras, extasiados com a própria habilidade, hipnotizados pelas faíscas que começam a emergir em cada uma das novas faces daquele pedaço de carvão que teve sua estrutura transformada pelo tempo.

Diamante cortando diamante. Mulheres gritando em desespero de um lado, o céu coberto por nuvens de fumaça. No outro extremo, antigos e belos edifícios podem ser vistos através das salas bem iluminadas.

170411161 No ano de 2002, as Nações Unidas promulgam uma resolução, Kimberley Process, que procura traçar a origem das pedras e proibir que joalherias comprem aquelas que venham de zonas de conflito. Por algum tempo, os respeitáveis lapidadores europeus voltam ao monopólio sul-africano em busca de material. Mas logo são encontradas fórmulas de tornar "oficial" um diamante, e a resolução passa a servir apenas para que os políticos possam dizer que "estão fazendo alguma coisa para acabar com os diamantes de sangue", como são conhecidos.

 Quando a sociedade não age para acabar com o crime, o homem tem todo o direito de fazer aquilo que julga mais correto.

( trecho do livro "O Vencedor Está Só " )

Um comentário:

  1. Tenho mesmo que aplaudir, fantástico as suas considerações. E como as pessoas que estão na base da piramide sofre em prol dos magnatas e elites dos "Diamantes de sangue".
    Abraço

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