segunda-feira, 21 de julho de 2014

Perfil : James Garner (1928 – 2014)

By: Vanessa Wohnrath

0 james garner James Garner (1928 – 2014)

Morreu o ator James Garner, um dos talentos mais versáteis de Hollywood, que conheceu sucesso em séries de TV e estrelou clássicos do cinema, tendo vencido o Emmy e sido indicado ao Oscar de Melhor Ator. Ele foi cowboy, detetive, astronauta e sedutor. Beijou algumas das mulheres mais lindas do cinema. Lutou até com Bruce Lee. E veio a falecer no sábado (19/7), aos 86 anos de idade, em sua casa em Los Angeles, de causas naturais.

O eterno astro nasceu em 7 de abril de 1928, na cidade de Norman, no estado de Oklahoma, com o nome de batismo James Scott Bumgarner. A sua mãe morreu quando tinha 4 anos e ele e seus dois irmãos sofreram nas mãos da madrasta. Querendo sair de casa, ele se alistou aos 16 anos na Martinha mercante, mas acabou dispensado devido à crises de enjoos que tinha em alto mar. O pai se separou e se mudou com os três filhos para Los Angeles e, lá, Garner conseguiu emprego de modelo na grife Jantzen, especializada em moda de praia.

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No Rastro dos Bandoleiros, com Randolph Scott e James Craig

Aos 22 anos, serviu na Guerra da Coreia (1950 – 1953), onde se feriu duas vezes. Começou sua carreira artística logo após ser dispensando, quando um amigo, o agente e produtor Paul Gregory, lhe ofereceu um pequeno papel na peça “The Caine Mutiny Court-Martial” (1954), estrelada por Henry Fonda (“Vinhas da Ira”). O trabalho do astro influenciou muito Garner, que revelou em uma entrevista que tentava imitá-lo ao máximo, brincando que roubou a forma de atuar de Fonda.

O jovem ator assinou contrato com o estúdio Warner Bros., estreando na televisão com uma participação na série de western “Cheyenne”, em 1955. No ano seguinte, atuou em dois filmes, “Rumo ao Desconhecido” (Toward the Unknown, 1956), com William Holden (“Crepúsculo dos Deuses”), e “Impulsos da Mocidade” (The Girl He Left Behind, 1956), estrelado por Natalie Wood (“Juventude Transviada”), com quem voltaria a trabalhar no drama “Amor de Milionário” (Cash McCall, 1960).

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Sayonara, com Marlon Brando

Ainda em 1956, Garner conheceu a sua futura esposa, Lois Fleishman Clarke, durante uma convenção presidencial do candidato democrata Adlai Stevenson. Duas semanas depois eles se casaram. O casal, que teve dois filhos, permaneceu junto até o fim da vida do ator. E ele costumava brincar que jamais poderia interpretar um republicano por causa das posições políticas da mulher.

Aos 29 anos, ele estrelou seu primeiro western no cinema, “No Rastro dos Bandoleiros” (Shoot-Out at Medicine Bend, 1957). O gênero marcaria sua carreira, assim como os romances, tendência de seu filme seguinte, o clássico “Sayonara” (1957), estrelado por Marlon Brando (“O Poderoso Chefão”), no qual viveu seu primeiro papel coadjuvante de destaque.

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Série Maverick

No mesmo ano, Garner conseguiu o trabalho que lhe rendeu protagonismo e popularidade, a série de western “Maverick” (1957 – 1962). Por cinco anos, ele viveu o charmoso Bret Maverick, um jogador de cartas trapaceiro, que pulava de cidade em cidade dando golpes com seu irmão Bart (Jack Kelly, de “O Planeta Proibido”). O personagem se destacou por ser completamente diferente dos esterótipos das produções de cowboys: Maverick não era exatamente um mocinho corajoso, tampouco um fora-da-lei. Além de tudo, mal pegava na arma.

A série foi celeiro de muitos talentos. O futuro 007 Roger Moore foi introduzido como primo de Garner em 1959 e chegou a aparecer em 16 episódios, substituindo Garner durante uma briga com os produtores, que levou ao seu afastamento da atração. Até Clint Eastwood participou de um episódio antes de ficar famoso pelos westerns spaghetti dirigidos por Sergio Leone (“Era uma Vez no Oeste”).

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Infâmia, com Audrey Hepburn e Shirley MacLaine

“Maverick” fez tanto sucesso que o personagem acabou aparecendo numa comédia de western “Valentão é Apelido” (Alias Jesse James, 1959), estrelada por Bob Hope (“O Rei da Confusão”), enquanto a série ainda era exibida na TV.

Mesmo após o cancelamento, o cowboy das cartas ressurgiu várias vezes. Primeiro, no telefilme “The New Maverick” (1979), que serviu para introduzir o irmão mais jovem do personagem, Ben Maverick (Charles Frank, de “Os Eleitos”), protagonista de um série de 1980 (“Young Maverick”). E finalmente em uma nova série própria, “Bret Maverick” (1981 – 1982), que durou apenas 18 episódios com o personagem na meia idade. Não foi, porém, o fim da ligação de Garner com o carteado. Ele ainda participou da adaptação cinematográfica da série, como uma espécie de mentor do Maverick vivido por Mel Gibson (“Coração Valente”) em 1994.

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Tempero de Amor, com Doris Day

O sucesso de “Maverick” foi o empurrão que faltava para Garner virar protagonista no cinema. Seu primeiro trabalho como ator principal foi no drama de guerra “Aqui Só Cabem os Bravos” (Darby’s Rangers, 1958), dando vida a um herói da 2ª Guerra Mundial após Charlton Heston (“Ben-Hur”) desistir do papel por questão salarial.

Mas mesmo os papeis de coadjuvante passaram a ter mais peso, como, por exemplo, sua participação no drama clássico “Infâmia” (The Children’s Hour, 1961), no qual interpretou o noivo de Audrey Hepburn (“Bonequinha de Luxo”). Na trama, ela era acusada de ser de lésbica por uma aluna, devido à sua amizade com outra professora, vivida por Shirley MacLaine (“Laços de Ternura”). Baseado na peça de Lillian Hellman (“Júlia”) e dirigido pelo mestre William Wyler (“Ben-Hur”), o filme era uma porrada que antecipou muitas discussões.

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Não Podes Comprar Meu Amor, com Julie Andrews

A maioria de seus filmes, porém, tinha temática mais leve, dada a sua preferência por comédias românticas. Neste gênero, ele disputou o amor de Kim Novak (“Um Corpo que Cai”) em “Uma Vez por Semana” (Boys’ Night Out, 1962), e se casou duas vezes com Doris Day (“Confidências à Meia-Noite”) em “Tempero do Amor” (The Thrill of It All, 1963) e “Eu, Ela e a Outra” (Move Over, Darling, 1963). Ele também foi marido de Debbie Reynolds (“Cantando na Chuva”) em “Lua de Mel com Papai” (How Sweet It Is!, 1968) e foi visto ainda em “Simpático, Rico e Feliz (The Wheeler Dealers, 1963), dirigido por Arthur Hiller (“Love Story – Uma História de Amor”).

Hiller e Garner voltaram a trabalhar juntos no romance “Não Podes Comprar Meu Amor” (The Americanization of Emily, 1964), que o ator chegou a considerar seu filme favorito. Na trama, ele interpreta um oficial naval cínico que vive a boa vida em tempos de guerra, só que tudo muda quando se apaixona por uma jovem (Julie Andrews, de “A Noviça Rebelde”) às vésperas de uma missão perigosa.

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Grand Prix

Andrews e o ator se reencontraram muitos anos depois no musical “Victor ou Victoria” (Victor ou Victoria, 1982), dirigido pelo marido da atriz, Blake Edwards (franquia “A Pantera Cor-de Rosa”). Um dos maiores sucessos dos anos 1980, o filme trazia Andrews como uma cantora desempregada que decidia se passa por homem para se apresentar em um clube. Mas seu plano começa a ruir quando sua verdadeira identidade é ameaçada, ao se apaixonar por um gângster (Garner).

Foi justamente por uma comédia romântica, “O Romance de Murphy” (Murphy’s Romance, 1985), que o astro conseguiu sua primeira e única indicação ao Oscar de Melhor Ator. No filme, ele vivia o farmacêutico de uma cidadezinha que se apaixona pela nova moradora (Sally Field, de “Lincoln”), uma mulher solteira e com um filho adolescente.

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A Hora da Pistola

A predileção pelo gênero não impediu que ele estrelasse filmes de ação, e essa versatilidade acabou lhe valendo muitas comparações, ao longo da carreira, com o galã Cary Grant (“Intriga Internacional”). Ambos compartilhavam de uma invejável capacidade para encantar o público, independente dos personagens que viviam.

Entre seus diversos papeis de ação, Garner se destacou no grandioso elenco de “Fugindo do Inferno” (The Great Escape, 1963), compartilhando um plano arrojado de fuga de um campo de concentração nazista com Steve McQueen (“Bullitt”), James Coburn (“A Cruz de Ferro”), Charles Bronson (“Desejo de Matar”), Richard Attenborough (“Jurassic Park”) e Donald Pleasence (“Halloween”).

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Detetive Marlowe em Ação, com Bruce Lee

Ele voltou a ser aprisionado pelos nazistas no thriller “36 Horas” (36 Hours, 1965), sobre tortura psicológica, na qual tentavam convencê-lo que a Alemanha tinha vencido a guerra. Fez ainda o tenso “A Mulher Sem Rosto” (Mister Buddwing, 1966), como um homem com amnésia que tenta descobrir sua verdadeira identidade. E até encarnou o célebre detetive noir Philip Marlowe em “Detetive Marlowe em Ação” (1969), no qual enfrentou ninguém menos que o astro do kung fu Bruce Lee (“Operação Dragão”).

Mas sua experiência favorita no gênero foi o filme de corridas “Grand Prix” (1966), no qual viveu um piloto profissional de automobilismo. A experiência acabou se transferindo para sua própria vida. Garner se tornou um aficionado por corrida de carros, criou uma escuderia (equipe de corridas) e até chegou a dirigir o pace car (carro de segurança) durante uma prova das 500 milhas de Indianápolis.

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Série Arquivo Confidencial

A popularidade de “Maverick”, claro, lhe rendeu convites para estrelar muitos westerns. Ele viveu outro personagem lendário, o xerife Wyatt Earp, em duas oportunidades, no western “A Hora da Pistola” (Hour of the Gun, 1967) e na comédia “Assassinato em Hollywood” (Sunset, 1988), repetindo a parceria com o diretor Blake Edwards. O ator ainda fez rir da profissão de xerife na comédia “Uma Cidade Contra o Xerife” (Support Your Local Sheriff!, 1969), que teve uma espécie de sequência temática em “Latigo, o Pistoleiro” (Support Your Local Gunfighter, 1971). Mas também soube dar seriedade aos cowboys que viveu em “Duelo em Diablo Canyon” (Duel at Diablo, 1966) e “Sledge, O Homem Marcado” (A Man Called Sledge, 1970). Além disso, ele voltou ao Velho Oeste televisivo na série “Nichols” (1971 – 1972), vivendo um militar aposentado que se torna o xerife de sua cidadezinha no começo do século 20.

Durante os anos 1970, Garner se reinventou como o detetive charmoso Jim Rockford, na série “Arquivo Confidencial” (The Rockford Files, 1974 – 1980). A produção foi exibida durante seis anos e conquistou ainda mais sucesso que “Maverick”, além de prestígio. Ele venceu o Emmy de Melhor Ator logo na estreia da atração.

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Victor ou Victoria, com Julie Andrews

Rockford era um ex-presidiário que se torna detetive, e sempre acabava levando a pior nos confrontos físicos de seus casos. Garner cansou de apanhar na série, mas não queria ser substituído por dublês. Entrentanto, as filmagens intensas de uma série de ação acabaram trazendo consequências na saúde do astro quarentão. A cada intervalo entre as temporadas, ele precisava operar o joelho, que se ressentia de uma antiga lesão. Foram cinco anos seguidos passando pela mesa de cirurgia, o que levou o ator a decidir abandonar a produção.

Mesmo brigando com o estúdio Universal, que não queria encerrar a série no auge de sua popularidade, Garner concordou em voltar a viver o detetive em diversos telefilmes, produzidos entre 1994 e 1999.

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O Romance de Murphy, com Sally Field

Garner venceu um segundo Emmy como produtor do telefilme “Promise” (1986), que também estrelou, na pele de um homem que cuida do irmão esquizofrênico, vivido por James Woods (“O Ataque”). E conquistou dois Globos de Ouro como Melhor Ator de Minissérie – por “Decoration Day” (1990) e “Selvagens em Wall Street” (Barbarians at the Gate, 1993).

A intensa participação televisiva do período compensou um período de filmes menos empolgantes, como o suspense “O Fã – Obsessão Cega” (The Fan, 1981) e a comédia “Uma Família em Pé de Guerra (Tank, 1984), até sua carreira cinematográfica ser resgatada, ironicamente, pelo filme baseado na série “Maverick” (1994).

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Maverick, com Mel Gibson e Jodie Foster

“Maverick” teve desempenho de blockbuster e voltou a colocar o ator em evidência, lhe permitindo emplacar novos sucessos. O renascimento cinematográfico começou com a comédia “Meus Queridos Presidentes” (My Fellow Americans, 1996), no qual ele e Jack Lemmon (“Quanto Mais Quente Melhor”) eram ex-presidentes tentando expor um caso de corrupção no governo atual.

Garner ainda se juntou a Paul Newman (“A Cor do Dinheiro”) no suspense “Fugindo do Passado (Twilight, 1998), como um ex-policial envolvido num caso de chantagem. E foi ao espaço com Clint Eastwood em “Cowboys do Espaço” (Space Cowboys, 2000), sobre uma tripulação de astronautas veteranos, convocados para uma última missão.

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Cowboys do Espaço, com Tommy Lee Jones, Clint Eastwood e Donald Sutherland

A carreira de sucessos teve ainda o fenômeno “Diário de uma Paixão” (The Notebook, 2004), um dos filme românticos mais adorados de todos os tempos. No filme, ele viveu o marido de uma vítima de Alzheimer (Gena Rowlands, de “Olive”), que conta para a esposa a grande história de amor que viveram – apresentada em flashbacks com Ryan Gosling (“Caça aos Gângsteres”) e Rachel McAdams (franquia “Sherlock Holmes”). Garner chegou a considerar o filme seu trabalho mais emocionante.

Ele fez um último retorno à TV na série “8 Simple Rules… for Dating My Teenage Daughter”, vivendo um avó que precisa cuidar das três netas adolescentes. Ele ocupou o lugar do pai da série, interpretado pelo ator John Ritter (série “Três É Demais”), que morreu de ataque cardíaco enquanto gravava a atração em 2003.

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Diário de uma Paixão, com Gena Rowlands

Seus últimos filmes foram o drama “O Presente” (The Ultimate Gift, 2006), no qual viveu um milionário que deixa de herança muitas lições de vida a seu neto mimado, e a animação “Batalha por T.E.R.A.” (Terra, 2007), em que trabalhou como dublador. Em 2008, ele sofreu um derrame, mas isto não o afastou da carreira. Ele ainda dublou o mago Shazam em curtas animados do universo dos quadrinhos DC, lançados em 2010.

James Garner foi um grande mestre de arte da interpretação invisível. Ele sempre parecia descontraído, lacônico e natural em todos os seus papeis. E uma vez disse: “Quando as pessoas me vêem na tela e dizem: ‘Aquilo é você sendo você mesmo – não é atuação’, eu considero o maior elogio que alguém possa me fazer”. Em uma entrevista de 1973, ninguém menos do que o icônico John Wayne (“O Homem que Matou o Facínora”) o chamou de melhor ator da América.

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+ Vanessa Wohnrath

Vanessa Wohnrath é jornalista e pós-graduada em Cinema. Há nove anos atua na área cultural. Trabalhou nas revistas Ver Vídeo e Blu-ray News, no site CinePOP e em agências de notícias, produzindo conteúdo para MSN, Yahoo! e Rolling Stone. Ela mantém os blogs No Mundo do Cinema e Cinegloss.

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Extraído do site http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/james-garner-1928-2014/319769

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