domingo, 16 de agosto de 2015

O que o senhor ou a senhora faria nos seus últimos dias ?

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Alain de Bottom

In : Como Proust pode mudar sua vida

Alguém que procurasse um jornal para ler em Paris, na década de 1920, poderia comprar uma publicação chamada L’Intransigeant. Esse periódico era conhecido por notícias investigativas, fofocas metropolitanas, classificados abrangentes e editoriais incisivos.

Também costumava elaborar grandes perguntas e pedir que celebridades francesas enviassem suas respostas.

No verão de 1922, o jornal formulou uma pergunta particularmente complexa para seus colaboradores: “Um cientista americano anuncia que o mundo vai acabar, de maneira tão repentina que a morte será certeira para centenas de milhões de pessoas. Em sua opinião, caso se provasse verdadeira, que efeitos essa previsão causaria sobre as pessoas entre a confirmação da notícia anteriormente mencionada e o momento do cataclismo? Por fim, no que lhe diz respeito, o que o senhor ou a senhora faria nessas últimas horas? “

A primeira celebridade a reagir ao tétrico cenário de aniquilação pessoal e global foi um homem das letras, conhecido naquela época, chamado Henri Bordeaux, sugerindo que as massas iriam diretamente para a igreja ou para o quarto mais próximo.

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Outra celebridade parisiense, uma talentosa atriz chamada Berthe Bovy, não propôs uma recreação para si mesma, mas partilhou com os leitores uma discreta preocupação com a possibilidade de que os homens se desvencilhassem de todas as inibições, uma vez que suas ações deixariam de ter consequências a longo prazo.

Esse prognóstico lúgubre se equiparava àquele de Madame Fraya, famosa quiromante parisiense, que achava que as pessoas estariam ocupadas demais em desfrutar dos prazeres mundanos para pensarem em preparar a alma para a vida após a morte — uma suspeita confirmada quando outro escritor, Henri Robert, declarou alegremente sua intenção de se dedicar a uma última partida de bridge, de tênis e de golfe.

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A última celebridade a ser consultada sobre seus planos pré-apocalipse foi um romancista recluso e bigodudo, que não era conhecido por seu interesse por golfe, tênis ou bridge, um homem que havia passado os últimos catorze anos deitado em uma cama estreita, sob uma pilha de densos cobertores de lã, escrevendo um romance inusitadamente longo, sem um abajur adequado em sua cabeceira.

Desde a publicação de seu primeiro volume, em 1913, “Em busca do tempo perdido” foi aclamado como uma obra-prima; um resenhista francês comparou o autor a Shakespeare, um crítico italiano o equiparou a Stendhal e uma princesa austríaca ofereceu-lhe sua mão em casamento.

Embora não tivesse grande estima por si mesmo e certa vez houvesse se referido a si próprio como uma pulga e à sua literatura como um pedaço de nougat indigesto, Marcel Proust tinha motivos para se sentir satisfeito. Até mesmo o embaixador britânico na França, um homem muito bem-relacionado e cauteloso em seus julgamentos, considerara apropriado conferir-lhe uma grande honra, descrevendo-o como “o homem mais notável que já conheci — pois não tira o sobretudo durante o jantar”.

Entusiasta em relação a colaborações com jornais e sempre afável, Proust enviou a seguinte resposta a L’Intransigeant e a seu catastrófico cientista americano: “Acho que, de repente, a vida nos pareceria maravilhosa se estivéssemos ameaçados de morte como o senhor diz. Pense em quantos projetos, viagens, casos de amor e estudos a vida oculta de nós, tornando-os invisíveis por causa da nossa preguiça, que, certa de um futuro, adia-os incessantemente. Mas, sob a ameaça da impossibilidade eterna, tudo isso voltaria a ser lindo! Ah! Se o cataclismo não acontecer desta vez, não deixemos de visitar as novas galerias do Louvre, de nos jogar aos pés da Srta. X, de fazer uma viagem à Índia. O cataclismo não acontece e deixamos de fazer tudo isso porque voltamos ao âmago da nossa vida normal, no qual a negligência arrefece o desejo. Mas não deveríamos precisar do cataclismo para amar a vida hoje. Seria suficiente pensar que somos humanos e que a morte pode acontecer esta noite.”

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